Pedro, o marinheiro.
Era marinheiro porque era a única coisa que se imaginava a fazer. Corpo confirmando a profissão, esculpido em perfeita obra de artista onde o avançar da idade só se adivinha pelas mãos salgadas e sexagenárias. Pele reluzente de tanta negritude. Olhos brincalhões numa face serena iluminda por vezes por um largo sorriso onde os dentes constituem artigo indefinido. Coroando, escassos fios se entrecruzam no alto da cabeça e nos dias de ventania maior fazem voltar ao uso a velha máxima do "poucos mas bons!" rodopiando tal qual bailarinas loucas.
"Pedro, o marinheiro" assim era conhecido e o condensado sumário nome- profissão era tudo o que se sabia. O primeiro nome herdou-o do pai, o segundo do contagiante entusiasmo com que exercia a profissão. Não se lhe conhecia outra paixão que não fosse o mar. -"Sou marinheiro." - anunciava, antes mesmo de dizer o nome. Observação inútil, pois de longe se adivinhava já o ganha-pão. Andava com aquele balancear de quem está habituado à eterna cadência das ondas. Vivia em parte alguma mas em nenhuma parte deixava de surgir quando os seus pouco acostumados pés pousavam em outra superfície que não o conês. Nessas raras alturas, rodeava-se de crianças que vinham afoitas escutar as histórias dos destinos fantásticos conhecidos nas suas andanças marrítimas.
-"Há reinos por este mundo fora- contava para a platéia atenta- que o sol nunca visita e onde as pessoas têm de conviver com monstros gigantes..." -"Histórias de marinheiro!"- desdenhavam os mais velhos, mas às crianças, e eram muitas as que vinham para o escutar, nem se lhes passava sequer o desejo de duvidar. Animado pela curiosodade dos mais novos, Pedro continuava:
-"Esta cruz que carrego no peito fez, em tempos, parte de um tesouro magnífico guardado por um ´dragão dos mais terríveis que já conheci..." A imaginação voava já solta pela criançada e, papéis trocados com o narrador, travavam-se batalhas emocionantes com seres fantásticos por tesouros incalculáveis.
Certo dia Pedro desapareceu. Não era mais um daqueles desaparecimentos corriqueiros, sentia-se no ar que era para sempre. Das lendas que surgiram, aquelas que os meninos -já homens feitos- mais gostavam e repetiam em variadíssimas versões, falava de um estranho chamamento do seu grande amor de sempre e um convite irrecusável para se juntar ao que mais amava.
Passou a ser ele próprio mar. De corpo e alma.
Escrito por nandi às 15h36


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