cronicas da vida dos outros...

macho latino,pero no mucho!

Era o amante das meninas todas. Cigarros e frases de efeito tiradas do jornal da barbearia. Latino macho?Concerteza. Daqueles de fazer marquinha na cabeceira da cama e colecionar alça de sutiã. Findo o processo meticulosamente elaborado que começava geralmente com uma cantada desafinada mas incrivelmente eficaz, passava rodopiante pela Estudantina  e culminava com uma nova marca discretamente esculpida no intervalo higiênico do prazer. Havia ainda mais uma coisa... um ritual que nenhuma delas compreendia mas que provocava fascinação imediata. Um grito seguido de um suspiro, o sangue afagava a  sua pele enrubescida e o chicote era guardado. À porta, aberta, acompanhava a constatação trivial mas sempre dolorosa: "Não era você.".

Certo dia uma revelação! Acorda cedo, aposenta o chicote, vende a cama e leiloa as alçinhas. Mochila arrumada. Campainha que toca, porta que se abre afoita. Um suspiro seguido de um grito: "Você!!! sabia que viria hoje!" ... as testosteronas se somam e a ânsia da descoberta se transforma em um beijo delicado. Saem abraçados. São Francisco costuma estar linda nesta época do ano... 

 

mona lisa

 

 Era mais um daqueles dias típicos de verão com as praias repletas e gente espalhada por tudo quanto fizesse lembrar minimamente um terraço onde formigavam autênticos depósitos humanos de cevada. Pais e mães de família desesperados por diversão, ou por pelo menos parecer divertidos, procurando sugar até à vermelhidão quase cancerígena os fartos ultravioletas...  tentativa aflita de fazer render os parcos dias de férias .

Aquela praia não era exceção, mas ela parecia alheia à explosão de vida que se sucedia em volta. Como se a alma se tivesse, por momentos, despido do corpo e esse tivesse ficado por ali, esquecido...

Um sorriso de Mona Lisa dos tempos modernos enfeitava-lhe a boca demasiado grande. O sol, àcido, estranhamente acalentava.  O passado turbilhonava na cabeça, passado só há pouco passado. Passado que invalidava completamente a possibilidade de futuro. O sorriso esmorece nos olhos, pequenas perolas negras, que se aproximam primeiro para depois se fecharem. Um grito é sufocado na garganta. Uma criança pequena foge assustada e observa de longe debaixo da toalha materna. As lagrimas se somam ao mar calmo e antecipam a maré cheia. 

Remoeu o começo de tudo, a festa, o jantar onde ninguém tinha fome mas que servira como pretexto, a mesma praia com um universo inteiro de estrelas que nem de longe tinham o brilho dos olhos de quem reconhece o seu último primeiro encontro. O brilho impresso nos olhos de ambos.   

 

   

(e agora? como será que eu termino a história? aceito sugestões!)

Domingo de Páscoa no Shopping- outra história [quase] verdadeira...

A data festiva tinha-os feito trocar os chopes habituais madrugada a dentro (e madrugada afora!) pelo burburinho vespertino do shopping lotado. Trajava berbudas pastéis, blusa desbotada fazendo coro com o rosto desbotado pelos anos passados atrás do balcão. Tinha servido bebida a milhares como ela, porém a nenhuma igual. Daquelas mulheres que são com toda a falta de propriedade chamadas de gordas. As generosidades espremidas na blusa pink tentando a todo o custo de libertar e aproveitar a agitação do shopping. 45? 50? concerteza sofridos. A gargalhada súbita confirma. É ampla e forte como os seios, triste como o olhar que aceita calado beijos do quase estranho que a escuta enlevado. "Nunca apareceu um homem que prestasse. Não pude criar. Me chamam de tia, tem roupas boas e viajam para onde querem".

"Maria era o nome da minha mãe" sussura esfregando edipianamente a face nas farturas dela, que nunca tinham conhecido as funções leiteiras habituais. "Nunca dei os peitos para elas". Não contou que os dava nos meses seguintes aos marmanjos da praça depois das funções de amor. Aconchegava e ninava até que a lua se despedisse.

Ele falou dos pais e da infancia suburbana, contou que fugia dos meninos que faziam piadas da sua ascendência lusitana. Não falou de Suzete, paixão repentina que se fora sorrateiramente junto com a aposentadoria do mês. Contou sim das sextas feiras da sua juventude, quando se iniciou nas artes do carteado. Até hoje poucas vezes tinha perdido.

Sairam da mesa mãos dadas, almas desconectadas. Ele receoso com a aposentadoria do mês seguinte, ela pesquisando chocolates para as sobrinhas.




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